003

Aos melhores sonhos reservo todo meu apego. Que dias bons não sejam apenas boas fotos, mas capazes de gerar sorrisos imponentes, cravados no rosto persistindo não só até o último segundo antes do sono, mas deixando um bom dia ao despertar.

Sei o preço indescritível de poder dividir a vida com amor. O quanto as cores ganham vida quando se tem no corpo mais do que uma só alma. De quanta sinestesia há de não ser mais responsável só por se sustentar, mas provocar um universo inteiro a ser cada dia mais feliz.

Quanto a isso evito me prolongar, que se mantenha simples a imagem utópica de viver em excesso, defendendo pelos dias o direito de ostentar uma alma pura que decidiu não mais ser só.

002

Abraço as palavras como meu único amigo sincero. Nelas me perturbo, inquieto, em busca de uma boa luta que me traga contentamento.

Nesse caminho busco a exaustão; e qualquer companhia se distanciaria naturalmente nem que fosse pelo peso, pela agonia ou pelo excesso.

Eu preciso dessas palavras e desse cansaço, é neles que mato qualquer ideia ruim, as corto antes que ganhem espaço, e em qualquer dia, em qualquer oportunidade, minha reação natural é olhar para o que há de pior em mim e sem qualquer pudor comprar a briga, expondo o que sou a qualquer sombra, qualquer dia ruim, qualquer dor.

O que sair dali serei eu. Espero eu que algo melhor, indigno de me dizer bom, mas suficiente pra próxima luta, lento e calejado pelo costume de cair na agonia que me encontra quando falta paz.

Não crio apego pela agonia ou tormento, por isso aceito os momentos difíceis com sinceridade. Preciso me tornar cada vez mais hábil a lidar com eles para encontrar um fim breve a qualquer combate, para todo mundo creio que a vida seja assim, talvez com menos ilustrações, um desenho mais seco e menos vivo, mas realmente acredito que seja assim pra todo mundo de certa forma.

E tenho objetivo nisso, não me tornei louco. Simplesmente quero reencontrar alguma sinceridade, qualquer sinceridade que eu ainda consiga ter. Seria terrível depois de tudo eu simplesmente aprender a mentir ou omitir.

Seja lá o que me tornei, mesmo que ninguém olhe, preciso me esforçar para ser algo que eu consiga olhar no espelho.

001

Não sei absolutamente nada sobre o que sacia a fome dos justos.

Foram longos anos para perder qualquer lembrança de pureza. Tornei-me o vilão adequado pra qualquer história que ousar brotar de minha cabeça.

O espaço que resido é um passo antes de uma barreira imóvel e inabalável de educação, que me impede de confiar que devo existir no espaço de qualquer outra pessoa, por melhor que sejam minhas palavras ou mais puras sejam minhas ideias. Não sinto rancor ou pesar e aceito o caminhar das coisas como justo. Simplesmente tornei-me receoso o suficiente para saber que meu engasgo não reside apenas na garganta, mas também na cabeça e peito.

Vejo ainda com clareza, talvez mais do que nunca - como uma piada trágica e persistente - a beleza e a felicidade da vida. entendo o pesar e a tristeza de cada decepção ou perda e realmente crio empatia por todos aqueles que por algum motivo se distanciam um centímetro que seja do caminho desejado. Do mesmo modo aprecio e me inspiro com todo e qualquer exemplo de sonho concretizado, desejo saciado, sorriso imprimido.

Contudo me sinto caminhando para a direção oposta da vida, como quem entorpeceu em uma ideia fixa e tenebrosa. Sem saber qual é meu lugar,  me entrego as palavras. Boas ou ruins, delicadas ou impiedosas. Me entendo como intragável, indigesto, verborrágico diante de um imbróglio que para mim mesmo se desenha insolúvel, facilmente resolvível seja com um soco na cara, ou como com um beijo sem fim.

Enfim, de qualquer vida, me ausento.