Por hoje sou me sinto como uma gota de chuva. Um dentre tantos a se desprender do conforto de uma nuvem por simples audácia de se lançar em queda livre.
Talvez fosse necessário, talvez não. A dúvida é um tanto quanto irrelevante perto do inevitável peso acumulado nos últimos tempo. Foram dias quentes, trouxeram as nuvens uma quantidade de novidades difícil de mensurar, seja em quantidade, seja em peso.
Provavelmente fui levado nesse embalo, o calor era verdadeiro, mas o mérito infelizmente não era meu. Algo irradiava calor, e me levou a fazer contas somando cada detalhe que por mais que eu quisesse, não conseguia evitar: Porque ela parece cada vez mais linda?
Falava de sua vida como quem fala de qualquer coisa: Mas não era o caso. Talvez ela simplesmente seja assim com qualquer um - o que não muda minha sorte de poder escuta-la e guardar cada coisa que puder saber sobre ela - mas ainda assim flerto com a chance de poder ser alguém digno de guardar seus segredos.
Em meio a eles, ela se mostrou duas pessoas. Partes dissonantes de uma pessoa que certamente já viveu bastante procurando acertar.
Metade dela parece bruta, verdadeira, crua. Obstinada por ter aquilo que quer e que escolheu precisar. Essa metade é forte é indelicada - Sinceramente, gosto do peso da sua sinceridade - Devidamente afiada, perfeita. Cada ponta sua me acertava em cheio, e o mais engraçado disso? Com certeza ela não faz a menor ideia.
A outra metade é diferente - Ela se esconde. Talvez seja demonstração de pura inteligência: Nada mais sábio do que esconder aquilo que é delicado. Com um pouco de vida é suficiente esconder essas partes e considera-las frágeis. Isso tudo é um tremendo chute, talvez ela seja simplesmente força bruta. Talvez ela seja inexoravelmente livre. Talvez ela seja impossível, uma conta que nunca vou entender e que surgiu por mera sorte e que vai estar sempre fora do meu alcance.
Talvez ela seja de verdade, e tudo isso seja só uma leve demonstração de que - por Deus - se eu tiver sorte, é bom eu ter prudência e estar preparado. Porque eu jamais conseguiria me defender dela.
Como chuva, simplesmente aceito que por hora caio. Mas tímido, confesso que sei bem onde gostaria de cair. Com a mesma ousadia de querer roubar dela seus segredos, ao ponto insuportável de sair do meu conforto, torço.
Que como chuva, nem que seja por mero descuido, que eu caia em seus lábios. Sei que pra isso mais do que sorte.
Preciso que ela queira se molhar.
Contudo ainda é cedo. Ela ainda tem cheiro de tempestade. Não sei bem do seu passado, dos seus amores. De como ela sente, do que ela quer. E eu em queda livre faço meu papel estúpido de sentir sua falta. Quero conhece-la, e sei que é estúpido pensar assim mas mesmo meus pensamentos mais descuidados parecem todos se inclinar a mesma pessoa.
Sei que não sou grande, sou só um pedaço de chuva. Reconheço que ela não tem qualquer motivo e até o momento não demonstrou qualquer interesse. Ela ainda se defende, talvez como se defende de todos, talvez ela saiba exatamente o que quer, talvez ela não queira nada.
E de tantos rodeios decido simplesmente cair, querendo que ela me queira a tempo.
Talvez não haja sequer tempo.