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Percebi em uma fração de segundos que ainda sou capaz de pular etapas o suficiente para causar espanto. Que existe em mim um ímpeto violento a ser domado, e que a criatura que em mim habita, contrariando minhas próprias expectativas, nunca morreu, apenas adormeceu por tempo indeterminado - talvez de fome.

Por belos olhos vi contas se tornarem obsoletas, e talvez uma chance - nobre - de poder provocar um bem emulado pela minha estúpida e frágil concepção de gosto. Meu afeto se viu afiado, e quis, ao menos se tornar próximo o suficiente para poder tentar.

Sei que na realidade é absurdo, e o momento com certeza pouco propício. Que dentre todas as opções, se apaixonar com certeza é a mais infantil e tola. Que mesmo nas melhores conjecturas, seria preciso tempo para fazer qualquer ímpeto soar diferente de algo absurdo, tornando-se uma escolha interessante, quase devida.

Que em mim, devo reconhecer estar bem longe de uma pessoa bonita, seja por fora, seja por dentro. Que em meu corpo não há qualquer conjunto atraente. Sou comum. E nesse mundo onde quase tudo seduz os olhos, minha chance é de mostrar que em meus sentimentos possa haver algo diametralmente oposto ao inócuo, que seja perfeito pra perfurar o peito de uma pessoa de maneira irremediável.

E ainda assim, eu não teria nada além de uma chance, uma tentativa, de agradar a um peito que guarda um coração certamente sensível e bastante desgastado por desesperanças. Sejam elas lembranças de imperfeições ou incompletudes, sejam puramente machucados gerados por abruptas interrupções de seu próprio desejo. Mal a conheço, mas seria estúpido de minha parte não reconhecer o calibre de sua força. Mesmo pequena, ela seria capaz de me quebrar em tantos pedaços ao ponto de que seria impossível me remontar sozinho.

Que seja serena minha oração por esperança, mesmo que perdida. Pois sei que Deus guarda a qualquer homem que vive o dever de respeitar a todos como suas criações, e por assim ser, inexoravelmente sagradas. Que em mim não exista espaço pra desejar ter nem conter nada, mas sim acompanhar com todo carinho que seja possível alimentar diariamente, para que o encontro com algo puro inspire nada mais que fidelidade.

Independente do caminho, que minhas mãos percam a força de querer ao menos um ponto anterior do cuidar. Para que a amizade seja o ponto de partida para qualquer decisão. De que não exista espaço para qualquer descuido mundano trazer mágoa, nem que em qualquer desavença exista pequenez de preferir o silêncio ao diálogo.

Pois tenho que admitir, humildemente, que a mim foi dada uma oportunidade da qual sou indigno: mesmo que apenas ver aqueles olhos de perto. Que em minha memória foi gravado cada momento com um cuidado estúpido de quem sabe que vai perder. E mesmo assim sou grato, sinto, que cada chance que tiver de corresponder esse afeto, me fará sentir puramente feliz.

Pois não dependo de qualquer exagero de palavras, ou violência de sentimentos. Mas humildade de reconhecer que não lido com uma pessoa bruta ou inconsequente, mas alguém delicada e verdadeira.

Sem esperança, aguardo poder ao menos ser útil. E que em dias triviais eu possa dividir sorrisos.

Queria ter um coração puro para ser digno de sonhar. É tão áspero quanto intangível.

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